5 situações que podem levar um prédio a desabar

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Presenciar o desabamento de uma edificação, ainda que seja através de uma reportagem na televisão, é sempre uma cena que carrega tristeza. Segundo Cunha, Lima e Souza, este tipo de acidente adquire repercussões diferentes em função de diversos fatores: existência de vítimas fatais e gravidade dos ferimentos, porte técnico da obra, importância política e prejuízos materiais causados a terceiros. De todo modo, e independente do porte da obra objeto da tragédia, trata-se de uma situação que gera perplexidade na população, podendo causar também uma certa insegurança, dada a evidência de possíveis fragilidades a que as construções podem estar expostas.  
Vale ressaltar, entretanto, que as técnicas e normas de engenharia têm como prever uma margem de segurança considerável para que este tipo de tragédia seja evitada.  
Existem inúmeros fatores que podem causar a queda de uma edificação, podendo-se citar desde erros no projeto, até falhas de execução ou ainda obras vizinhas. Pensando em ajudar projetistas e executores a estarem atentos a possíveis causas de desabamento, listamos aqui as 5 principais situações que podem levar um prédio a desabar.

  • Erros na concepção e detalhamento do projeto estrutural

A concepção estrutural da edificação é parte primordial do projeto de engenharia. Através dela, o projetista identifica as necessidades de sustentação da obra e realiza a análise e  dimensionamento normativos. Por essa razão, os erros cometidos na fase de concepção da estrutura podem ser responsáveis por danos irreversíveis na construção, ou no período de uso da edificação.
Tão importante quanto a análise e dimensionamento das peças estruturais, é o detalhamento executivo, que é a base para a execução dos elementos que compõem a estrutura. Os detalhamentos, quando mal interpretados, podem não traduzir as necessidades levantadas previamente na concepção, podendo gerar elementos que não serão capazes de suportar as condições a que as estruturas estarão verdadeiramente expostas.
Seguem abaixo alguns fatores que devem ser criteriosamente considerados ao projetar e detalhar uma estrutura:

  • Atendimento adequado de todas as normas vigentes que regem projetos de estruturas;
  • Consideração de todas as ações de carregamentos que atuam na estrutura;
  • Consideração de flechas e deslocamentos durante a concepção, para que possam ser previstas formas de atender aos limites estipulados em norma;
  • Geração de detalhamentos padronizados e bem definidos;
  • Representação de cada elemento que compõe os detalhes de forma clara, sendo incluídas legendas, observações e quaisquer outras informações que sejam relevantes.


2) Falhas na execução da obra
Assim como no caso de problemas de concepção e detalhamento construtivo da estrutura, existem diversas possíveis causas de desabamento provenientes de falhas construtivas da obra. Os erros de execução podem surgir tanto a partir de falhas dos métodos empregados ou do não atendimento do projeto, quanto de deficiências dos materiais empregados na obra.
Observe na lista a seguir alguns dos principais fatores construtivos que podem causar o desabamento de uma edificação:

  • Definição e posicionamento de armaduras em desacordo com o projeto estrutural;
  • Métodos construtivos indevidos;
  • Falhas de concretagem;
  • Traço de concreto incorreto;
  • Cura do concreto mal feita;
  • Resistência dos materiais em desacordo com o projeto estrutural.

Outro item que merece atenção e que não é propriamente construtivo, mas também ocorre no período da concepção da obra, diz respeito ao escoramento, que é o sistema que irá sustentar o peso do pavimento enquanto o concreto não tiver atingido a resistência necessária. O sistema deve ser especificado em projeto, devendo ser informadas, de forma precisa, as distâncias, posição das escoras, quantidade e material, além de orientações importantes para a montagem e desmontagem segura dos componentes. O não atendimento dessas especificações, ou mesmo o descimbramento precoce pode comprometer a resistência dos elementos estruturais e causar danos irreparáveis na edificação, como fissuras e flechas, podendo contribuir para o colapso da mesma.
 
3) Fundações inadequadas e/ou falta de estudo do solo
Em linhas gerais, o sistema de fundações é responsável por suportar com segurança as cargas provenientes do edifício. Dada a grande importância deste sistema, deve ser criteriosamente definido pelo projetista, que deve considerar nessa escolha, basicamente, a topografia do terreno, o porte da edificação, os carregamentos atuantes, as construções vizinhas e as características do solo do local da obra.
Visto que o solo é parte extremamente relevante da escolha do sistema de fundações, deve ser feito estudo preliminar do mesmo através de ensaios de sondagem. Esses ensaios buscam obter dados importantes como:

  • Variabilidade das camadas de solo e suas profundidades;
  • Existência de camadas resistentes ou adensáveis;
  • Compressibilidade e resistência do solo;
  • Posição do nível da água.

Suprimir quaisquer dos itens citados acima pode resultar na escolha inadequada das fundações da edificação, podendo resultar em recalques diferenciais, por exemplo. Tais deslocamentos geram fissuras nas estruturas, que posteriormente podem levar ao colapso.

4) Falta de manutenção
A manutenção da estrutura nada mais é do que o conjunto de práticas necessárias ao bom desempenho da edificação, compreendendo inspeções rotineiras da estrutura e a recuperação de itens considerados com problemas ao longo dessas inspeções. A manutenção também pode ter cunho corretivo, geralmente emergencial, cujo intuito é recuperar itens já comprometidos e que já apresentam impossibilidade de uso.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Avaliação e Perícias em Engenharia de São Paulo (Ibape/SP), cerca de 80 a 90% dos imóveis que não passam por revisão tem algum problema de segurança, estado de conservação, manutenção, desempenho, exposição ambiental, utilização e operação.
Ainda segundo o Ibape/SP,  a falta de manutenção é o principal fator que compromete as estruturas de prédios.
Assim, uma das formas de assegurar a durabilidade da estrutura, é a realização de inspeções preventivas periódicas. A partir dessas inspeções, tem-se conhecimento de possíveis problemas patológicos, podendo-se proceder com medidas corretivas de recuperação destes, que futuramente poderiam comprometer o desempenho da estrutura.
Em linhas gerais, a inexistência dessas medidas preventivas de conservação pode gerar problemas irreversíveis na obra, contribuindo com a ocorrência de desastres estruturais. Entre essas patologias, vale a pena destacar:

  • Corrosão das armaduras, causada pela exposição da estrutura à agressividade do meio, como poluição, radiação e umidade;
  • Fissuras ou trincas, causadas por diversas situações, como variações térmicas, sobrecarga nas estruturas, qualidade baixa de materiais empregados, entre outros;
  • Fragmentação do concreto;
  • Perda visível de seção das armaduras;
  • Manchas de ferrugem na superfície do concreto;
  • Infiltrações, entre outros.

A dica, neste caso, é apostar na prevenção, pois a correção de pequenos problemas tende a evitar patologias mais graves, que exigirão reforço estrutural, ou mesmo a demolição da edificação.
 
5) Intervenções e situações de utilização não previstas
Por fim, outro fator que pode contribuir para com o desabamento de uma edificação diz respeito às situações de utilização não previstas em projeto, quando estas forem capazes de alterar o comportamento da estrutura e, portanto, comprometer a sua capacidade resistente e levá-la ao colapso.
Existem diversos tipos de intervenções e situações que podem ocorrer ao longo da utilização de uma edificação que podem alterar a sua resistência, citando-se:

  • Reformas da edificação com consequente mudanças na estrutura, como eliminação de paredes, vigas, pilares, inserção de furos não previstos em projeto, entre outros;
  • Sobrecargas não consideradas em projeto;
  • Alteração da estrutura a partir do aumento da edificação, com a inclusão de outros pavimentos e/ou de elementos não previstos;
  • Fenômenos naturais não contemplados em norma, como sismos e furacões, entre outros.

No caso das intervenções, uma recomendação é a contratação de um profissional habilitado para que seja verificada a viabilidade das mesmas, bem como o levantamento de possíveis necessidades de alterações no projeto, como, por exemplo, a inclusão de reforços na estrutura.
 
Fontes de Referência:
Acidentes estruturais na construção civil, volume 1 / coordenação: Albino Joaquim Pimenta da Cunha, Vicente Custódio Moreira de Souza, Nelson Araújo Lima. — São Paulo : Pini, 1996.
LOURENÇO, Líbia da Costa; MENDES, Luiz Carlos. Detecção preventiva de patologias em edificações. Revista Techne. Disponível em:<http://techne17.pini.com.br/engenharia-civil/167/artigo285852-2.aspx>. Acesso em 4 jun. 2019.
FREITAS, Caroline; NUNES, Branca. Como e por que um prédio desaba. Revista Veja. Disponível em:<https://veja.abril.com.br/brasil/como-e-por-que-um-predio-desaba/>. Acesso em 4 jun. 2019.
PIANCASTELLI, Élvio Mosci. Patologias do concreto. Disponível em: <https://www.aecweb.com.br/cont/m/rev/patologias-do-concreto_6160_10_0>. Acesso em 4 jun. 2019.
DOM TOTAL. Falta de manutenção é o principal fator que compromete as estruturas de prédios. Disponível em: <https://domtotal.com/noticia/1200184/2017/10/falta-de-manutencao-e-o-principal-fator-que-compromete-as-estruturas-de-predios/>. Acesso em 4 jun. 2019.

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